No Congresso Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) de 2026, ocorrido há poucos dias, em Chicago, nos Estados Unidos, um dos últimos trabalhos a serem apresentados tornou-se o maior assunto de todo o evento.

O trial RASolute 302 é um estudo multicêntrico, internacional, randomizado, de fase 3 que demonstrou benefício oncológico com uma nova droga em pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático e abriu espaço para uma evolução no tratamento do câncer pancreático.

O adenocarcinoma ductal pancreático (PDAC) é um dos cânceres mais letais que existem, sendo a maioria diagnosticada já em estágio avançado, com doença disseminada. Para pacientes com PDAC metastático (mPDAC), a sobrevida global mediana costuma ser inferior a 1 ano. Atualmente possuímos opções limitadas, comumente baseadas em quimioterapia citotóxica, que apresentam baixa taxa de resposta e severos efeitos tóxicos.

As mutações oncogênicas na família de genes que codificam proteínas RAS  (rat sarcoma virus) são os principais motores desse câncer, presentes em mais de  90% dos casos, especialmente mutações no códon 12 do gene KRAS. Mesmo os tumores que não possuem mutações RAS podem ser dependentes de sinalização por proteínas RAS, utilizando a via MAPK (proteína quinase ativada por mitógeno).

Desta forma, o estudo RASolute 302, publicado no The New England Journal of Medicine, em 31 de Maio de 2026, utilizou o daraxonrasib, um inibidor oral e  multisseletivo que atua sobre a proteínas RAS ligada ao GTP – o estado ativo,  chamado do RAS(ON) – funcionando em estados mutantes e do tipo selvagem do RAS. Ele forma um complexo que suprime a sinalização anômala que impulsiona o  crescimento do tumor e é projetado para ser seletivo às variantes ativas de KRAS,  NRAS e HRAS, incluindo mutações específicas como G12, G13 e Q61.

Neste trial, foram incluídos 500 pacientes adultos com mPDAC previamente tratado (que progrediram após tratamentos de primeira linha, seja neoadjuvante,  adjuvante ou exclusivo). Os pacientes foram divididos em proporção 1:1. Um grupo  de 248 pacientes recebeu daraxonrasib (300 mg via oral diariamente) e um grupo controle de 252 pacientes recebeu quimioterapia escolhida pelo investigador (como  gemcitabina + nab-paclitaxel, mFOLFIRINOX, FOLFOX, entre outras).

O desfecho primário do estudo foi avaliar sobrevida global (SG) e sobrevida livre de progressão (SLP) na subpopulação com mutações RAS G12A, a qual correspondia a cerca de 91,8% dos participantes. Além disso, desfechos  secundários incluíram análise de também de SG e SLP na população global (todos os pacientes do estudo, que incluía os pacientes com mutações RAS G13, Q61 ou sem mutação RAS identificada), taxa de resposta objetiva e avaliação de qualidade de vida.

Os resultados demonstraram uma superioridade drástica do daraxonrasib em comparação com a quimioterapia padrão. Na população RAS G12, a sobrevida global mediana foi de 13,2 meses com daraxonrasib contra apenas 6,6 meses com quimioterapia. Na população global, a SG mediana também foi de 13,2 meses (daraxonrasib) contra 6,7 meses (quimioterapia). Isso representou uma redução de 60% no risco de morte (HR 0,40) em ambas as populações.

Na população RAS G12, a sobrevida livre de progressão mediana foi de 7,3 meses com daraxonrasib contra 3,5 meses com quimioterapia, traduzindo uma redução de 55% no risco de progressão (HR 0,45). Na população global, foi de 7,2 meses contra 3,6 meses, com uma redução de 51% no risco de progressão (HR  0,49).

Sobre taxa de resposta, a população RAS G12 apresentou quase o triplo de redução tumoral: 33,2% com daraxonrasib contra 11,8% com quimioterapia. Na população global, o mesmo resultado foi encontrado – 31,6% com daraxonrasib e 11,2% com quimioterapia.

Além disso, o tratamento com a nova droga conseguiu atrasar  substancialmente a piora da qualidade de vida. O tempo mediano até a deterioração sintomática da dor – um sintoma crítico nesse tipo de câncer – foi de 9,0 meses com daraxonrasib, contra apenas 3,7 meses com a quimioterapia na população RAS G12. Na população global, foram 9,2 meses contra 3,8, traduzindo uma redução de risco de piora da qualidade de vida de 49% (HR 0,51) para ambas as comparações. O mesmo ocorreu no contexto de piora do estado de saúde global, com 5,6 meses com daraxonrasib contra 2,4 meses com quimioterapia na população RAS G12, e 5,7 contra 2,6 na população global. A redução de risco de piora global de saúde foi de 40% (HR 0,60).

O tempo mediano de duração do tratamento foi bem maior no grupo do  daraxonrasib (6,2 meses) em comparação com as terapias quimioterápicas (variou  de 1,5 a 3,2 meses), mas ainda assim apresentou melhor tolerabilidade. Eventos  adversos de qualquer grau ocorreram em 100% dos pacientes com daraxonrasib e 97,7% no grupo de quimioterapia. Efeitos de grau 3 ou superior ocorreram em 61,8% no grupo daraxonrasib contra 69,6% no grupo quimioterapia.

Os efeitos mais comuns do daraxonrasib envolveram principalmente pele e trato gastrointestinal, incluindo erupção cutânea ou rash (86,3%), diarreia (67,2%), estomatite (54,8%), náusea (52,3%), vômito (42,3%) e fadiga (33,6%). Apenas 1,2% dos pacientes descontinuaram o tratamento com daraxonrasib devido a efeitos adversos relacionados ao medicamento, contra 11,2% no grupo que recebeu quimioterapia.

O artigo conclui que o tratamento diário e oral com daraxonrasib superou de forma contundente a quimioterapia padrão na segunda linha de tratamento. O inibidor ofereceu sobrevida global e sobrevida livre de progressão significativamente mais longas, diminuiu a dor e preservou a qualidade de vida por mais tempo, possuindo um perfil de segurança gerenciável e uma taxa de abandono por toxicidade muito baixa.

O daraxonrasib representa um avanço clínico muito significativo para os  pacientes que lutam contra o mPDAC e abre novos horizontes para o tratamento do câncer de pâncreas como um todo. Começam a surgir novas hipóteses. Será que  essa droga tem papel na adjuvância? Melhor ainda, será que conseguimos aumentar a taxa de conversão de tumores bordeline de pâncreas e melhorar os defechos cirúrgicos? Além disso, e os outros tumores que também têm sua  carcinogênese envolvida com o RAS, como colorretal, pulmão e ovário, será que há  espaço para esta droga?

O futuro é esperançoso.

Referências

O’Reilly EM, Wainberg ZA, Hendifar AE, Borad MJ, Pietrantonio F, Pant S, et al.  Daraxonrasib or Chemotherapy in Previously Treated Metastatic Pancreatic Cancer.  N Engl J Med. 2026 May 31. doi: 10.1056/NEJMoa2605555

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